As obras clássicas e fundamentais
de um intelectual nacionalista

Fernando Jorge*

Cumprimento o portal autor.org.br pela divulgação do texto “A Reconstrução Nacional-Fundamentos de um Projeto de Nação”, que constitui verdadeira plataforma para o País sobreviver à dominação globalizadora. No meu entender, a nação brasileira não pode ignorar um projeto tão decisivo para nosso presente e futuro.

Luiz Toledo Machado é, não dúvida, um dos mais importantes intelectuais do Brasil. Novelista, ensaísta, jornalista, professor universitário, ex-chefe do Departamento de Literatura e Ciências Sociais da Universidade de Brasília, ele é autor de obras admiráveis no campo da ficção, como a novela Virgília e o romance Cavalo do tempo, e de ensaios profundos, excelentes, como Interpretações literárias, O herói, o mito e a epopéia, Antônio de Alcântara Machado e o modernismo, O processo literário, História e ficção – Uma interpretação da vida e da obra de Paulo Setúbal.

Escritor engajado no bom sentido, presidente do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo, sempre empenhado na defesa das causas públicas, Luiz Toledo Machado tem sido incansável em sua luta de intelectual nacionalista. Ele age com a palavra e com a ação, pois também promove debates sobre os grandes temas atuais que devem ser analisados por todos os brasileiros lúcidos, incapazes de aceitar a existência de um Brasil inerte, passivo, vergado em frente da desumana política de globalização, causadora da nossa dependência junto de potências hegemônicas, como os Estados Unidos.

Na denúncia dessa dependência, frustradora das nossas mais justas aspirações, podemos afirmar com absoluta certeza que Toledo Machado vem procedendo como um pioneiro. E documentos insofismáveis da sua peleja em prol da soberania do Brasil, da libertação do nosso país das algemas da perniciosa e ilusória política econômica liberal, são os seus dois livros mais recentes: O preço do futuro Um modelo de reconstrução nacional, publicado pela Editora Vozes, e Concepções políticas do Estado e da questão nacional dos séculos 19 e 20, um lançamento das Edições Mandacaru.

As duas obras do autor o inserem entre os grandes pensadores sociais brasileiros. Na classe do sergipano Manoel Bonfim, que examinou e interpretou, impulsionado por um vivo sentimento nacionalista, o passado do Brasil à luz de instrumentos metodológicos novos para a sua época (ele se utilizou do marxismo, como é visível no seu livro sobre “o Brasil nação”, no qual pôde ver, de maneira nítida, a realidade da soberania nacional). Luiz Toledo Machado é da classe, também, do paulista Eduardo Prado, que embora fosse monarquista, inimigo da República e do Federalismo, denunciou no seu livro A ilusão americana, de 1893, a submissão do governo brasileiro ao imperialismo dos Estados Unidos. Eduardo Prado conseguiu prever, logo após a queda do Império, a dominadora expansão do sistema capitalista estadunidense. A doutrina do amigo de Eça de Queiroz era esta: o Brasil devia ser livre e autônomo perante qualquer país, sem jamais se sujeitar à tutela política da pátria de James Monroe.

Incluo ainda Luiz Toledo Machado na classe do fluminense Alberto Torres, autor de uma das mais valiosas obras do nosso pensamento nacionalista, o livro O problema nacional brasileiro: introdução a um programa de organização nacional (Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1933). Sim, incluo Luiz na classe desse insigne sociólogo porque conforme salientou Barbosa Lima Sobrinho, a eloqüente lição de Alberto Torres foi a de quenão seria possível construir uma nação, como todos desejamos que seja o Brasil, usando, na sua edificação, a argamassa da humilhação, da ameaça e do medo”.

O ensaio O preço do futuro, de Luiz Toledo Machado, além de estar muito bem escrito, é uma análise fria e ao mesmo tempo empolgante do processo histórico do capitalismo e da sua influência nos países latino-americanos. Ao realizar o levantamento das condições econômicas desses países e das suas atividades políticas, Luiz gerou um texto que é o complemento, por se achar na mesma altura, do livro A ilusão americana, de Eduardo Prado. Este é uma corajosa denúncia. O livro de Toledo Machado também é. Aliás, a dialética da argumentação do autor de O preço do futuro é tão notável quanto a do autor de A ilusão americana. E as conclusões de Luiz Toledo Machado, como as de Eduardo Prado, são rigorosamente lógicas, cartesianas:

“Os vínculos atuais do Estado privatizado com a internacionalização produziram um quadro sistêmico de conflitos e tensões sociais e políticas que se manifesta na brutalidade da vida cotidiana e no caos social diante da elevada taxa de desemprego, miséria e desamparo. No plano político institucional, a retórica democrática liberal não corresponde à realidade do País vulnerabilizado pela extrema fragilidade das suas instituições sócio-econômicas e políticas” (página 87).

Depois de se referir às “graves distorções do sistema partidário desarticulado”, geradoras de enorme desconfiança num eleitorado traído, Toledo Machado chegou à seguinte conclusão:
“A
democracia multilateral da agenda de Washington reflete apenas a estratégia da unipolaridade para a manutenção do status quo na América Latina, isto é, do neocolonialismo, cimentando a nova divisão internacional do trabalho, apoiada pelas velhas oligarquias e por uma ‘nova classe’ urbano-industrial e bancária associada ao grande capital internacional”.

O livro Concepções políticas do Estado e da questão nacional nos séculos 19 e 20, de Luiz Toledo Machado, é a análise mais completa e mais fascinante do papel do Estado e da sua influência na América Latina. Em nenhuma outra obra aparece, com documentação tão rica e argumentação tão cerrada, o plano da geopolítica dos Estados Unidos para a América Latina e Caribe. As conclusões de Luiz Toledo Machado nos fazem lembrar os firmes e incontestáveis julgamentos dos eminentes sociólogos que o precederam, as sentenças de Manoel Bonfim, Eduardo Prado e Alberto Torres. Vejam, por exemplo, estas linhas do capítulo 17 do seu livro, onde ele comenta a “metáfora da globalização”:

“No Brasil, o liberalismo econômico sempre foi a bandeira do neocolonialismo, do capital forâneo, das oligarquias renitentes e do setor externo da economia. A preeminência do capital inglês remete à Independência, mas acentuou-se a partir de fins do século XIX, encerrando-se nos anos 30, quando foi sucedido pelo capital estadunidense. Os estratos dominantes da sociedade brasileira e dos demais países da América Latina abraçaram o liberalismo em razão da estreita dependência ao mercado externo, tomando-o como modernizador.”

De maneira clara, didaticamente, Luiz Toledo Machado explicou tudo. Ao escrever, ele nunca apela para o economês. O seu estilo é de quem sabe sintetizar, sem cair na secura Não há uma informação, nos textos desse mestre, desse professor de brasilidade, que não esteja apoiada nos sólidos e indestrutíveis alicerces da verdade.

Na minha opinião, estes dois magníficos ensaios de Luiz Toledo Machado, O preço do futuro e Concepções políticas do Estado e da questão nacional nos séculos 19 e 20, tornaram-se obras clássicas fundamentais para todos os brasileiros que desejam contemplar, usando as palavras de Luiz, “a reconstrução nacional”, o controle do capital estrangeiro, “a reconquista do patrimônio público estratégico”, “a integração nacional mediante profundas reformas sociais”. Os dois livros não apenas descrevem uma doença: eles também mostram os remédios que podem eliminá-la.

 *Fernando Jorge é escritor e advogado, autor de mais de um dezena de livros sobre a cultura brasileira.