Projeto Nacional e mudança de modelo

Paula Beiguelman*

A “Reconstrução Nacional - Fundamentos de um Projeto de Nação”, texto de Luiz Toledo Machado, inserto no portal  “autor.org.br”, remete ao seu importante livro sobre o Estado e a Questão Nacional nos Séculos 19 e 20 ( edição Mandacaru-CPC - Umes - Hucitec), destacando que o governo FHC arriscou o País  temerariamente a um colapso de dimensões imprevisíveis. Colocou o País sob total dependência do capital especulativo, alienou as empresas estratégicas ao capital estrangeiro, incentivou e permitiu a absorção de  empresas privadas de capital nacional, entregou aos bancos estrangeiros a poupança local, promoveu o desemprego e estimulou a corrupção endêmica em todas as instâncias do poder políticos e administrativo.

Observa ainda que os Estados nacionais do terceiro Mundo, que foram as principais vítimas do processo denominado “globalização”, encontram-se atualmente mais distanciados do que nunca dos centros de decisão econômica, financeira e política. “São os excluídos da terra” - conforme afirma o autor. E ressalta que a questão nacional exige novo pacto de caráter internacional, contando com a participação ativa dos países periféricos, a começar por ampla negociação da dívida externa, tendo em vista uma moratória conjunta da parte ilegítima da dívida, como solução para o saneamento das finanças e a estabilidade econômica e social.

Na verdade, o peso da dívida externa brasileira e dos demais países da América Latina tem sido, como analisa o professor Luiz Toledo Machado, a razão decisiva do atraso e da miséria desses países de reduzida capacidade de soberania. Aliás, no cerne do monetarismo, que inspirou a globalização e fundou um novo poder político mundial, está o princípio da redução do Estado  acusado de responsável  pelos déficits fiscais, que teriam gerado as crises de insolvência e a inflação, cuja origem se encontraria no excesso da oferta de recursos monetários. Essa premissa conduziria à falsa solução do controle da massa monetária mediante a aplicação de juros altos, o que levou os países dependentes financeiramente e endividados à inviabilização das suas economias.

Tanto o livro como o projeto nacional proposto baseia-se no princípio do desenvolvimento autocentrado, fundado na economia estatal, isto é, orientado para um desenvolvimento interno relativamente autônomo, como condição de cidadania e de sobrevivência econômica da nação. Essa colocação “implica numa decisão política soberana e na busca de uma estratégia alternativa ao programa neoliberal globalizante, aliás, em crise, imposto pelos EUA e instituições internacionais. A defesa contra as condicionalidades externas é pressuposto básico”. No Brasil, temos condições  efetivas de suficiência para o exercício da autodeterminação e para desempenhar papel significativo de poder nas relações geopolíticas em toda a América latina e nos demais países do Terceiro Mundo, particularmente na imensa área do Atlântico Sul.

Porém, para alcançar esse objetivo cumpre operar uma mudança fundamental de modelo. Em vez de investimentos privados do centro, optaríamos por proceder ã acumulação interna de capital, lastreada no mercado interno em crescimento e em políticas de máximo emprego. Ao capital internacional se reservaria apenas papel complementar, numa economia direcionada pelo Estado.

No plano das negociações comerciais com o exterior, referindo às lutas da economia agrícola para vencer as barreiras comerciais do países do centro, Luiz Toledo Machado observa que “seria ingênuo admitir que os países como os EUA, um dos maiores exportadores agrícolas altamente financiados e países do continente europeu, que seguem a lei básica da segurança alimentar, possam mudar suas legislações para atenderem aos reclamos da balança comercial do Brasil”. A resposta ao estrangulamento externo, a seu ver, está na máxima ampliação do mercado interno, de maneira a integrar no circuito da produção e consumo três quartas partes da população brasileira, atualmente excluída, oferecendo-lhes um mínimo de condições de sobrevivência.

Especialmente importante e detalhado é o capítulo intitulado “A fronteira interior”, em que o autor trata da questão fundiária, detalhando os absurdos e perigos da manutenção de uma estrutura anacrônica de posse e uso da terra, a qual, além do mais, permite a entrega de áreas inteiras por cessão ou venda e com preços depreciados, retirando-as assim do controle soberano da nação.

ainda a candente questão das ameaça à integridade da Amazônia, considerada de longa data como reserva de segurança econômica e territorial dos EUA em virtude da sua posição estratégica, bem como recursos minerais, de biodiversidade e hídricos.

Em suma, como diz o autor com justeza “o projeto nacional proposto visa a mobilização da sociedade para a reconstrução do Estado como limite à dominação internacional e à mudança dos pressupostos do desenvolvimento da ordem social”.

 *Paula Beiguelman é Professora Associada da USP - Universidade de São Paulo e vice-presidente do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo.