Em solidariedade à República Boliviariana de Venezuela

Paula Beiguelman*

No dia 21 de outubro passado a oposição tentou deflagrar uma greve que, no entanto, caiu praticamente no vazio.

Em desespero ante o fracasso, a reação mobilizou no dia seguinte (22) um grupo de militares que, reunidos numa pequena praça de Caracas, passaram a conclamar civis e militares a juntar-se a eles em “desobediência civil”. A maior parte desses insurgentes estivera seriamente envolvida no golpe de 11 de abril.

 No dia 23, uma nota oficial do Exército condenava o apelo à desobediência feito na véspera pelos rebeldes.

 Também o secretário-geral da OEA, César Gaviria, os criticou, declarando: “Tais atitudes e demandas quebram a lealdade constitucional que os oficiais das Forças Armadas devem ao presidente da República, Hugo Chávez Frias”.

Dias antes, fora apresentado, tanto aos representantes do governo como aos da oposição, um documento preparado pela OEA, o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e o Centro Carter, propondo saídas constitucionais para a crise política. O governo subscreveu o documento, mas a oposição, em vez disso, preferiu apresentar uma declaração na qual traçava, insolentemente, princípios para um governo de transição, sem Chávez! Ou seja, a oposição se empenhava em destituir, mesmo que ao arrepio da Carta Democrática da OEA, um governo legitimamente eleito e confirmado.

 Com esse objetivo, simultaneamente a uma virulenta campanha através dos meios de comunicação privados, passava-se à coleta de assinaturas para um abaixo-assinado solicitando a antecipação das eleições.

 Concediam ao presidente Chávez 30 dias para responder. No caso do presidente não aceitar a intolerável imposição, apelariam à desobediência civil, garantida, segundo eles, pelo artigo 356 da Constituição — o que é falso, para o caso em pauta. E de qualquer forma a Constituição prevê um referendo revogatório apenas a partir de agosto de 2003, quando o mandato presidencial chega à metade.

 No dia 28 de outubro Gaviria chegava à Venezuela para nova tentativa conciliatória.

 Chávez considerou positiva a reunião com o secretário-geral da OEA e também ressaltou a firme condenação dele ao grupo de militares sublevados e reunidos na praça.

 Já os inimigos se mostraram decepcionados com Gaviria, que consideravam haver sido muito cordial com respeito ao presidente.

Este, por sua vez, fazia valer sua autoridade ante os opositores. “Se essas minorias — declarava — com tanto poder econômico e controlando a mídia tentaram sabotar a Venezuela ou ameaçar a paz, o governo não hesitará em agir”. E lembrava ainda que para propor eleições antecipadas os opositores deveriam primeiro procurar reformar a Constituição, o que competia à Assembléia Nacional.

 No dia 4 de novembro a oposição realizava uma tumultuada marcha por Caracas, para entregar ao Conselho Nacional Eleitoral o abaixo-assinado solicitando um referendo imediato (não previsto pela Constituição) acerca do mandato do presidente. Conseguiram entregar o documento depois de um confronto com chavistas que os aguardavam, e sobre os quais a polícia metropolitana do prefeito Alfredo Pena lançou bombas de gás lacrimogêneo, ferindo dez pessoas.

 Simultaneamente, a OEA, juntamente com o Pnud e o Centro Carter, tentava promover uma mesa de diálogo, para a qual o presidente Chávez sugeria como sede a Conferência Episcopal.

 O presidente se declarava disposto a falar de tudo, desde que os assuntos respeitassem a Constituição.

 Já a oposição, desinteressada do diálogo, se obstinava em propor a realização de um referendo consultivo para pressionar Chávez a renunciar ou promover eleições antecipadas.

 Uma vez entregue o documento com as assinaturas colhidas pela oposição, o CNE se dispunha a revisar as firmas e avaliar a possível convocação de um referendo em dezembro. Contra-atacando, o presidente se dirigiu à Justiça, solicitando o afastamento da direção do CNE, o que redundou na renúncia do presidente desse órgão.

 Os ânimos se acirravam, e o presidente Chávez advertia, no dia 10, que não aceitaria chantagens nem ultimatos da oposição.

 Foi então que se produziu um grave enfrentamento, provocado pela polícia metropolitana, da alçada do prefeito de Caracas, Alfredo Pena, opositor e conspirador.

 Ocorreu que no dia 12, uma parte dos efetivos policiais, que tinha entrado em greve havia um mês e meio, devido a atraso dos salários, realizara um ato de protesto, o que motivara severa repressão por parte da mesma polícia metropolitana. Duas pessoas morreram e pelos menos 11 ficaram feridas. Segundo a TV Globovisión, os manifestantes teriam fechado pela manhã o acesso à prefeitura, onde Pena se reunia com vários políticos da oposição. Logo policiais metropolitanos começavam a lançar bombas de gás para dispersar os manifestantes.

 Foi preciso deslocar para o local a Guarda Nacional, ligada às Forças Armadas.

 Deputados do Movimento Quinta República (MVR), chavista, acusaram Pena de haver efetuado uma repressão desproporcional à manifestação. E um dos comandantes da própria polícia metropolitana declarou à TV estatal que as ações violentas praticadas haviam enterrado as negociações que ele vinha mantendo com os grevistas.

 No dia 15 de novembro, o Conselho Nacional Eleitoral decidia arbitrariamente que a proposta para um referendo antecipado sobre a continuidade do mandato presidencial era legal, por se tratar de um referendo apenas consultivo, sem o caráter revogatório do mencionado na Constituição, o qual só é permitido realizar a partir de agosto de 2003, quando o presidente chega à metade do mandato.

 A falsa inocência dessa colocação, fruto de sofisma e chicana jurídica, se desmascara pela simples leitura da questão que esse referendo, hostil e indutor de desestabilização, pretendia propor: “Você está de acordo em solicitar ao presidente Hugo Chávez que renuncie voluntariamente ao seu cargo de maneira imediata?”

 Quanto à mesa de diálogo mediada pela OEA, a oposição não permitia que os entendimentos progredissem; e até se negou a assinar o acordo de não-violência no país. Os governistas, muito justamente, acusavam  a oposição de adotar posições golpistas. Era evidente o objetivo dela de continuar mantendo o caos no país.

 Foi em vista de tudo isso que o governo decidiu tomar a atitude de desarmar o inimigo.

 No dia 16 de novembro o ministro do Interior, Diosdado Cabello, ordenava que os 8 mil integrantes da polícia metropolitana se reportassem diretamente ao governo central, em “uma medida temporária para garantir a lei e a ordem”, visto que uma greve que a prefeitura não conseguia resolver dificultava o combate ao crime.

 No dia 17, tropas do Exército mantinham guarda nas principais delegacias de polícia de Caracas. Veículos blindados davam apoio às tropas da Guarda Nacional que participavam da operação. O prefeito estava proibido de ingressar nos recintos da corporação policial.

 No seu programa dominical, no mesmo dia 17, Chávez declarava: “A polícia metropolitana está uma anarquia. É obrigação do Poder Executivo nacional se envolver num problema de segurança e de ordem pública”.

 No dia 19, a oposição sai em marcha novamente, agora contra a intervenção na polícia metropolitana de Caracas, buscando impugná-la judicialmente. Além disso, continua insistindo na realização de um referendo em dezembro, visando, como sempre, desestabilizar o governo.

Por fim, marca para o dia 2 de dezembro uma greve geral contra o presidente Hugo Chávez. A convocação era encabeçada pela CTV e a Fedecámaras, as mesmas protagonistas do 11 de abril.

 Antes do anúncio da greve, Gaviria, presente no país, havia recomendado que a oposição não tomasse atitudes drásticas, para não prejudicar o diálogo. Mas ela não estava interessada no entendimento.

 O presidente Chávez denunciava: “Por trás da convocação de greve há uma carta escondida para um novo golpe”, Acusava também a degeneração do uso dos meios de comunicação. E referindo-se ao tom do noticiário sobre a greve geral marcada para o dia 2 de dezembro, repreendia: “Este governo não vai permitir que canais de televisão fiquem apregoando e apoiando golpes”.

 No dia 28 de novembro iniciava-se nova escaramuça: o Conselho Nacional Eleitoral aceitava a realização do referendo, marcando-o para o dia 2 de fevereiro de 2003!

 “É um 11 de abril eleitoral, um ´golpecito´”, reagiu o vice-presidente José Vicente Rangel. Segundo ele, tratava-se de uma sentença nula, pois o CNE, sem levar em conta uma decisão do Tribunal Supremo de Justiça sobre a matéria, decidira por maioria simples de 3 votos contra 2; na verdade, os votos favoráveis teriam que ser no mínimo 4. O vice-presidente da República acrescentava que o governo estava, sim, interessado em buscar uma saída eleitoral para o impasse político. “Mas uma saída sem armadilhas, sem emboscadas e isto (o referendo) é uma emboscada”.

 Horas depois, a Justiça anulava o ato do CNE, confirmando ser necessário, para a aprovação, o voto de 4 dos 5 integrantes da direção do CNE.

 No mesmo dia 28, os mentores da oposição haviam declarado que poderiam suspender a greve geral anunciada para o dia 2 de dezembro. Agora, anulada pelo TSJ a decisão do CNE, voltavam atrás. Além disso, no dia 29, o presidente do CNE, afrontando a Justiça, decidia ratificar por sua conta a validade do referendo pretendido para o dia 2 de fevereiro de 2003.

 Na seqüência, sempre em desespero, a oposição retomava no dia 30 o plano de uma greve golpista a partir de 2 de dezembro. 

No próprio dia 2 de dezembro, quando se iniciou, a greve já tendia a esvaziar-se. E assim foi por mais alguns dias, até que recrudesceu, com o intenso incentivo da mídia privada.

 Foi então que, em sua exasperação inescrupulosa, depois de criar um sangrento incidente ainda nebuloso, os agitadores apelaram para a sabotagem criminosa contra um setor vital, o petrolífero, chegando ao seqüestro de navios.

 O governo evidentemente reagiu e tomou as devidas providências para sanar os danos causados por inspiração de setores interessados, em última análise, no projeto geopolítico de abertura da PDVSA ao capital estrangeiro.

 Quanto à sugestão norte-americana feita no dia 13, para antecipar as eleições, (o que é inconstitucional), O presidente Hugo Chávez retrucou altivamente: “Não creio que a Casa Branca esteja dizendo ao mundo que a Venezuela tenha que romper com a própria Carta Magna”. Simultaneamente, navios seqüestrados vão sendo retomados e a exportação se regulariza.

 No dia 15 de dezembro, Domingo, após um acirramento na véspera, a oposição se recolheu um pouco. Já a massa popular, que apoia o governo, saiu às ruas em carreata, para manifestar seu repúdio à conspiração e às sabotagens contra a PDVSA.

 Quanto aos agitadores, continuam ameaçando abertamente continuar com as arruaças provocadoras até alcançar seus propósitos espúrios. Não o conseguirão, é evidente, pois o governo tem o apoio popular e o das Forças Armadas.

 Como lembra muito bem o cônsul-geral Fredy Balzan, a República Bolivariana da Venezuela goza da mais ampla democracia. O que deixa a oposição inimiga inconformada e agressiva, é o fato do presidente Chávez se recusar a frustrar as esperanças nacionais e populares, e continuar a cumprir as promessas em nome das quais se elegeu.

 *Paula Beiguelman é Professora Associada da USP - Universidade de São Paulo e vice-presidente do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo.