Revolução Cultural
Ética e Cidadania


Textos de Paulo Cannabrava Filho*

América Latina pós
Consenso de Washington
Tecendo uma nova Cultura
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Cultura das Cidades

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Petrodólares e o
capitalismo volátil
Do vicioso para
o virtuoso
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Quando descemos das árvores e perdemos o rabo, evoluímos de apenas gregário para o ser social. Quem sabe esse 0,05 de diferença na cadeia do DNA que nos separa da minhoca está na capacidade genética que temos de acumular conhecimentos, de usar esse conhecimento para melhorar nossa condição de vida, a capacidade de modificar o nosso entorno. Essa constatação constitui o maior avanço ocorrido na ciência genética. Ao decifrar o código genético, os cientistas comprovaram que homens, mulheres, pretos, brancos, amarelos ou índios, somos todos absolutamente iguais.

É longo o caminho percorrido pela humanidade na construção do processo civilizatório que desembocou no que somos hoje. A primeira vista pareceria que evoluímos muito, que estamos muito distantes daqueles que iniciaram essa marcha. Não obstante, nas questões essenciais, o arquétipo humano continua o mesmo.

Uma dessas questões essenciais e permanentes nessa longa marcha empreendida pela humanidade é o conflito. Conflito na estruturação do poder na família. Conflito na estruturação do poder na comunidade. Se prestarmos atenção, veremos que o confronto entre nômades e sedentários no passado não é diferente do conflito entre potências hegemônicas e países periféricos. Então, fica evidente o verdadeiro busílis que é a contradição entre opressão e libertação.

Observando as contradições derivadas dessa realidade em que o ser humano, como ente social, busca as formas da convivência, a filosofia entendeu que isso é política. Quer dizer que sendo o ser humano um ente social ele é também um ente político. A política estrutura a sociedade, organiza as formas de convivência não só no interior de uma comunidade como também com o mundo exterior. Organiza inclusive a cultura e também as formas de dominação.

Quando a humanidade se organizou para viver socialmente, além da necessidade de superar conflitos teve que resolver a necessidade de alimentar muita gente. Descobrimos então que sem a terra não há produção e que sem o trabalho não há produtividade. A sobrevivência da espécie está ligada à organização da produção do alimento que é o mesmo que dizer da organização da vida. A humanidade adquiriu mais sabedoria e experiência a partir da atividade agrícola – a cultura agri.

Cultura é semear, cuidar e colher, armazenar, distribuir. Isso é tão importante que o filósofo chamou de cultura todo o conhecimento adquirido. Daí que não se pode pretender reduzir a cultura a meras apresentações da criatividade artística. Modo de produção também é cultura, é arte.

A acumulação do conhecimento ocorrida em uma agrupação humana e sua organização num espaço geográfico comum gerou a Nação. O mesmo idioma, modos de produção comum, um jeito próprio de encarar a vida, a identificação na criatividade objetiva e subjetiva nas artes, tudo isso constitui a personalidade de um povo. É o que se entende por identidade cultural de uma Nação.

A Nação se organiza e impõe regras para a convivência social. Ela se organiza para a defesa de ataques externos para a proteção de suas fronteiras. Organiza-se também para preservar sua identidade cultural. Essa organização é o Estado. O Estado é o ente político social. É a nação organizada para a defesa e para as relações internacionais.

Ainda segundo os filósofos, o que dá o conteúdo à organização social é a ética. Assim como a estética está relacionada com a construção do belo, com a busca da perfeição na arte, a ética está relacionada à busca da perfeição na convivência social. O mundo ético é o mundo bom.

A ética é indispensável para o desenvolvimento social. Há quem diga que ética é bem estar social. Giannetti, por exemplo, diz que sem ética a própria sobrevivência fica comprometida.

Com esse entendimento, hoje se estuda a ética do desenvolvimento. Entram aí as questões tão em voga como a ética da ecologia, da reprodução, da genética, do transplante, dos transgênicos.

Tanto nos meios de comunicação tradicionais como no mundo virtual – e há que incluir aqui todo tipo de utilização que se dê à Internet - a exigência da ética é crucial. E é preciso pensar se, além disso, não deve existir um certo controle.

Quando se fala em ética na convivência social está-se definindo o conceito de cidadania. Aliás, entendo que ética e cidadania são expressões de um mesmo conteúdo.

O cidadão é o indivíduo como parte do Estado. A convivência e a interação entre os diversos indivíduos impõem limites à liberdade. Então, o cidadão ético é aquele que conhece os seus direitos e os direitos dos outros, direitos que são regulados pelo Estado.

Uma pergunta persegue intelectuais e artistas: Qual é o papel do artista cidadão, do intelectual cidadão? Como ser um artista ético? Um intelectual ético? O compromisso maior do intelectual cidadão, do artista cidadão é para com a sociedade. A sociedade de sua nação, de seu país.

A sociedade consumista, do consumo estetizado, a sociedade da ditadura do capital volátil, do liberalismo transformado em libertinagem, privilegia sobretudo o indivíduo. Pior que isso. Mais valor tem aquele que leva vantagem. Ora, o indivíduo não pode ser contraponto ao social porque o indivíduo é naturalmente um ser social!

A contracultura da pós-modernidade é contra a cultura da modernidade. Enquanto aquela vê o fim da história, esta trata de resgatar a história para forjar o futuro. A banalização dos valores culturais nacionais, a cultura de massa e a conseqüente alienação, a desesperança diante da ausência de futuro, a ridicularização de nossos líderes, tudo isso forma a contracultura da globalização que nada mais é senão a velha cultura da dominação.

Vale lembrar Roberto Damatta que diz que está na hora de pensar criticamente a liberdade. É para concordar. A liberdade desprovida da ética cidadã leva à barbárie em que se está transformando o mundo. A modernidade exige a construção da igualdade. Toda ação cultural deveria estar dirigida à construção da solidariedade, ao desenvolvimento da igualdade. Só assim chegaremos ao cidadão ético, capaz de viver em harmonia com a natureza e de construir a paz. De não ser assim, estamos fritos, literalmente. De onde se conclui que é necessário planejar o futuro de modo consistente, e criativamente.