Os fundamentos de um modelo nacional

 Luiz Toledo Machado

Minha Intervenção  decorre de reflexões acerca do destino nacional. Por quê em 181 anos de Independência não conseguimos alcançar a autodeterminação, resolver o problema da miséria, do subdesenvolvimento e da dependência, implantando um modelo autônomo, que contemple a nação como sujeito coletivo.  

  1. Mesmo depois da Independência  não conseguimos sair ainda da linha de sombra da divisão internacional do trabalho.O sistema histórico mundial de longa duração que vivemos, transitou desde o descobrimento  do mercantilismo colonizador  para a revolução industrial, do capitalismo financeiro, desde o final do século 19, para a globalização e o monetarismo, atualmente sob a hegemonia dos EUA, cujo déficit público atinge hoje meio trilhão de dólares.. Os países periféricos foram vítimas históricas do sistema. Nesta última fase, o sistema em crise apresenta poucos e inócuos instrumentos de estabilização, que não resolvem nem a crise do capitalismo central e menos ainda os países da periferia. Resume-se no receituário monetarista, que só serve ao capital financeiro especulativo. .Seus principais instrumentos adotados pelo FMI-Banco Mundial resume-se no ajuste fiscal para o pagamento do histórico juro da dívida externa impagável, na abertura de mercado para intensificar a expropriação do excedente nos países periféricos, na manipulação das taxas de juros, na liberação cambial, na flexibilização do trabalho para ampliar a mais- valia e na privatização do Estado, do seu núcleo estratégico de desenvolvimento. Foi a política de câmbio, juro e de serviço da dívida que produziu a denominada vulnerabilidade externa bem como a crise da seguridade social, o desemprego e a miséria , o declínio econômico. Porém, creio que será possível o país caminhar em outra direção.A história nos ensina que os ciclos de civilização, mesmo os de longa duração, são mortais e que o mundo que agora existe está passando. Atualmente no Brasil vivemos um ciclo falido da economia: o do modelo liberal-financeiro e das privatizações que causaram danos irreversíveis ao País.

  2. Em nossa história a busca de um projeto nacional  constitui aspiração histórica da nacionalidade desde a Independência. Jose’Bonifácio formulou algumas das suas premissas:a abolição do tráfico de escravos e reforma agrária, base econômica do senhoria rural, responsável pelo atraso. Condenava também os ruinosos empréstimos estrangeiros “abismo em que mais tarde ou mais cedo seriam precipitadas as nações” Sua profecia se consumou ao largo de quase dois séculos.Com a Independência o Brasil herdou vultosa dívida com a Inglaterra, em 1824 contraiu novo empréstimo para o pagamento da primeira dívida. Outros contratos de consolidação da dívida crescente com os banqueiros ingleses foram realizadas até o final do Império. Ao ser proclamada a República nossa dívida com os bancos ingleses era de 32 milhões e 600 libras esterlinas.Na República Velha .durante o governo Campos Sales ocorreu um no acordo conhecido como “Funding Loan” (consolidação da dívida)  com o grupo Rothschild  em troca de um empréstimo de 10 milhões de libras esterlinas destinado ao pagamento dos juros da dívida. O governo , consoante o acordo, hipotecou as rendas da alfândega do Rio, sua principal fonte de receita e, subsidiarimente, a das outras alfândegas, submetendo-se à fiscalização. na,a despeito, continuou crescendo. Em 1920-21 o governo levantou novo empréstimo na praça de Londres para intervir do mercado cafeeiro e em 1924 iniciou fez novo acordo de crédito para compor o fundo de valorização do café;.e em 1929 o governo do estado de São Paulo,com o aval federal, iniciou novo pedido de empréstimo acordado em 1930 denominado Coffee Realisation Loan. Com as reservas em ouro esgotadas e a dívida externa vencida,o governo revolucionário de 1930 foi obrigado a negociar com a banca internacional novo Funding Loan: é reescalonada a dívida externa. Os acordos nada resolveram e em 1935 existiam três hipotecas sobre as alfândegas brasileira e todos os impostos e taxas estavam empenhados. Finalmente em fins de novembro de 1937 o governo Getúlio Vargas mediante decreto-lei congelou o pagamento da dívida externa e  no mês de dezembro instituiu o monopólio cambial para evitar a evasão das reservas ouro. O País assim liberto do endividamento começava a respirar e investir na infra-estrutura.No último pós-guerra, a despeito dos ativos brasileiros congelados no exterior, que se evaporaram no governo Dutra, o governo enfrentou nova crise cambial em 1950. Nos últimos 20 anos o FMI interveio diretamente na política econômica do país em 1983, impondo o se clássico receituário monetarista e em 1987 no governo Sarney foi decretada uma moratória incompleta, que redundou em novo acordo com os credores. Do Governo Collor ao final dos dois períodos de FHC ..

O FMI interveio com recursos para o pagamento da dívida em agosto de 1988 e setembro de 2002.Não obstante, a dívida herdada pelo novo governo praticamente empatou com  o PIB. A conclusão está em que o endividamento histórico agravado pós-Consenso de Washington foi em grande parte responsável pelas sucessivas crises econômicas e políticas,além de devorar a poupança interna impedir drasticamente o desenvolvimento.

Já lembrava Barbosa Lima Sobrinho que o capital se faz  em casa. A experiência

histórica brasileira e dos demais países da América Latina evidencia o desastre do modelo dependente de empréstimos e investimentos especulativos externos.

  1. Os estratos dirigentes econômicos e políticos interligados nunca se preocuparam  com a idéia de nação, atrelados como apêndice às  oligarquias centrais. Respondem pelas profundas distorções da estrutura social, pelo desemprego, salários rebaixados, miséria que atinge 70 milhões de brasileiros. Esses estratos dirigentes sempre estiveram na direção nacional da política nacional, no executivo e no congresso, salvo em alguns períodos decorrentes da revolução de 30..:

Além das  perdas patrimoniais, da internacionalização do espaço territorial, da corrupção sistêmica, e da miséria crescente, da deterioração da infra-estrutura física, o  Brasil atingiu uma situação inédita em sua história com o endividamento impagável tanto público  como externo. Há ainda dúvidas quanto a essa parte da dívida: como calcular - sem registro dois movimentos de capitais e sem controle de câmbio- o montante real da dívida externa? O próprio economista-chefe do FMI Kenneth Rogof foi obrigado a render-se à evidência reconhecendo que a dívida externa engole o crescimento dos países.

Essa realidade dramática recoloca a questão nacional em termos de sobrevivência histórica da nação. O confronto  básico que se estabeleceu com a nova ordem internacional ocorre entre o capitalismo internacional liberal-monetarista, cujo receituário é imposto pelo FMI-Bird e demais instituições, correspondendo a uma nova forma de imperialismo mundial e o nacionalismo imanente  à consciência nacional, latente nos paises periféricos, em especial na América Latina.

. Temos que encontrar e palmilhar o nosso próprio caminho, criar um novo tipo de desenvolvimento, fundado nas nossas necessidades vitais, independentemente dos modelos hegemônicos. 

.   Muito embora o governo FHC principal responsável pelo desastre histórico já tenha terminado, perduram seqüelas duradouras.Porém, o País não pode dar continuidade ao modelo falido, ao pacto neocolonial a que fomos submetidos, contando com o apoio do dispositivo internacional hegemônico.O continuísmo em suas variantes,  apresentado  em programas heterônimos de governo poderá nos conduzir  a uma situação limite de crise sem retorno.    Esse é o perigo que nos ronda, se não soubermos conjurá-lo.  Depende em última instância  de um decisão política soberana, respaldada na consciência cívica nacional, pois implica na reorganização e distribuição  do produto social o que somente será possível com profundas mudanças na estrutura social.

O desenvolvimento implica no crescimento do produto social e na sua distribuição equânime, na formação e ampliação de forte mercado interno.

O desenvolvimento econômico brasileiro como premissa não pode continuar dependendo do financiamento externo, do capital especulativo, do modelo de mercado destrutivo.

. Romper as condicionalidades externas e as internas, estas dos estratos dirigentes tradicionais e modernos, é pressuposto básico para a nossa sobrevivência através de  um projeto efetivamente nacional.

  1. A agenda para 2003 da forças lúcidas da nação, que não se subordinam às determinações externas, passa obrigatoriamente pela por uma decisão política de reestruturação  das dívidas externa e interna; pela reconstrução do Estado privatizado, observando nítida separação entre o direito público e o privado; pelo planejamento estratégico e por um plano imediato de ação, contemplando a reintrodução à Constituição de 88 das cláusulas pétreas que lhe foram arrancadas pelas emendas constitucionais; pela substituição da fantasia espoliativa e perversa do "mercado" pelo planejamento nacional , que reconstrua a infra-estrutura física criminosamente degradada; por uma política de máximo emprego mediante investimentos essenciais na infra-estrutura  social ( a sociedade ainda não contabilizou as perdas com o desemprego e o subemprego) ; pela exigência do exercício efetivo das prerrogativas nacionais; por uma política externa independente, que sirva aos interesses do País; pela mudança na estrutura de uso e posse da terra. por uma concepção de desenvolvimento auto-centrado; pela recuperação das empresas públicas dos setores estratégicos privatizadas com recurso do BNDES, que não vêm cumprindo os contratos e editais de venda e concessão; pela normatização dos investimentos diretos estrangeiros consoante o interesse nacional; pela  regulamentação das remessas de capitais; pelo  rígido controle pelo Estado do capital estrangeiro, pelo monopólio  cambial, pela reformulação da política de ciência, tecnologia e cultura; pela  afirmação do papel constitucional das Forças Armadas, incluindo, portanto, a temática da Amazônia, ameaçada de jurisdição internacional, o  fortalecimento da aliança dos paises do Terceiro Mundo, que remete ao Pacto de Bandung e às Resoluções da ONU de 1974, rejeitando as intervenções imperialistas de qualquer natureza; por uma política externa independente e por um regime de trocas comerciais internacionais bilateral baseado na reciprocidade..

  2. Desde as crises da dívida externa  dos anos 80, provocadas pelo aumento unilateral dos juros dos EUA e, particularmente, a partir do "Consenso de Washington", cristalizou-se entre os estratos dirigentes financeiros, empresarias, políticos e intelectuais acadêmicos, em sua maioria, a posição ideológica contraditória de que é impossível ao Brasil sobreviver sem a :"ajuda" internacional.  Com essa idéia imposta pelos centros de decisão internacional, as oligarquias tradicionais e modernas do País passaram a adotar o refrão de que o crescimento só seria possível com a abertura comercial e financeira, o que exigiria em contrapartida  rígido "ajuste fiscal" com o sacrifício perverso da população para o pagamento da dívida crescente, uma bola de neve sem fim. Passaram, portanto, a combater e desqualificar  a idéia de um projeto de nação, busca histórica e aspiração permanente da nacionalidade, mesmo diante do colapso da globalização e dos seus núcleos de sustentação, o que atesta eloqüentemente a  inviabilidade, esta sim, do modelo único hegemônico. Essa posição , que nega a alternativa nacional, mesmo no quadro do direito internacional, fundado no princípio dos direitos das unidades geopolíticas soberanas,tem sigo seguida pelos sucessivos governos.
    O que se propõe é uma nova concepção de desenvolvimento que não poderá  mais equacionar a economia nos padrões  do FMI. As economias nacionais nos paises periféricos terão de ter novos instrumentos de criação de riqueza e de avaliação, que ultrapassem o pragmatismo dos modelos fiscais e monetários e a política cambial ortodoxa. A questão está na produção interna e na distribuição de renda. A força de uma economia reside na pujança do seu mercado interno e na poupança nacional. O denominado déficit zero só serve para o pagamento de juros à usura internacional num processo típico do neocolonialismo espoliativo.Diante da atual crise profunda do sistema globalizado o País não conseguirá , mesmo à custa de redobrados sacrifícios da classe trabalhadora e do povo em geral financiar o seu pesado passivo externo e interno. Estaremos condenados daqui para frente a uma existência meramente formal para o pagamento do juro da dívida, tal como aconteceu no passado..Entre janeiro e junho de 2003 o governo com grande esforço obteve um superávit primário de 5,45 do PIB, equivalente a R$ 40 bilhões, mas foi obrigado a pagar somente em juros R$74,3 bilhões.Ou seja o governo teve de desembolsar R$ 74,3 bilhões correspondendo a 4,63% do PIB.
    Sem o capital especulativo estrangeiro e liberto dos juros extorsivos o País não quebra.
    Muito ao contrário poderá retomar o crescimento implicando num novo contrato social, que distribua renda e regulamente o território, o uso e posse da terra, que já tarda. 

A nossa proposta nacional , em discussão há tempos  aponta um novo rumo para a economia brasileira .Trata ,no fundo, de uma nova concepção de economia política, de desenvolvimento e de Estado-Nação.

O livro Brasil 2002  narra a servidão do país desde a Independência, as origens do nosso subdesenvolvimento e realiza completo levantamento desde o governo Collor aos dois mandatos de FHC. 
O projeto nacional colide frontalmente com a proposta estadunidense da ALCA. Com ela compromete-se tanto o presente como o futuro da nação brasileira. Já não se trata da abertura comercial do mercado brasileiro, anulando o já incipiente parque industrial. Ela vai mais longe administrando as compras governamentais, propriedade intelectual , investimentos e serviços. Quanto às compras governamentais, abre o setor público à concorrência internacional. As empresas multinacionais, particularmente as norte-americanas, poderão participar das concorrências do setor público, tanto federal, como estadual e municipal para fornecer bens e serviços, inclusive na área militar e espacial. Com relação à propriedade intelectual  revoga o direito da pesquisa  nacional no campo da ciência e tecnologia.e atrela o País à lei de patentes norte-americana. No que se refere aos serviços abre a economia aos fornecedores norte-americanos, mutilando toda e qualquer possibilidade de desenvolvimento  aos audiovisuais e meios de comunicação, comprometendo a já frágil identidade cultural do País. No caso dos investimentos os investidores estrangeiros estariam em situação privilegiada, anulando as políticas de investimentos nacionais tanto públicas como privadas. O fórum privilegiado nos casos de conflito , serão os tribunais internacionais. No fundo trata-se de negar ao Estado/governo brasileiro sua autonomia política e jurídica e sua capacidade de implementar um projeto nacional de desenvolvimento. Regressaremos, assim, ao estádio colonial. Portanto a idéia do projeto nacional  e o combate à Alca constituem a peça- chave do nosso destino de nação. Não podemos nos enganar. Os resultados da conferência de Miami de novembro de 2003 não são definitivos para os empresários dos EUA. O governo norte-americano apenas transferiu para outra oportunidade política mais favorável a proposta integral da Alca. Urge, pois, a implementação de um projeto nacional como estratégia de defesa da soberania do Brasil.