O olhar da história
A contra-revolução neoliberal

Luís Toledo Machado

“...Já escrevi que a História está empenhada não
 na
distração das elites, pois ela não é um entretenimento,
mas em revelar a dignidade e o valor da existência humana.
Ela profunda a experiência humana, pretende tornar mais
conscientes os homens, e mostrar-lhes os processos
econômicos
e sociais em que estão envolvidos”.
José Honório Rodrigues

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Não trataremos aqui dos grandes cortes históricos, cuja abordagem necessita de perspectiva de tempo, mas do processo de descontinuidade incidindo em curtos períodos , porém com implicações altamente negativas na vida dos povos e das nações. No caso brasileiro, resume-se a momentos, não mais do que isso, de hiatus irrationales, de reversão de uma continuidade de aspiração histórica de busca de um projeto de nação. A idéia da descontinuidade transformou-se na historiografia num fenômeno curioso de involução do pensamento e da “praxis”, de inflexão de trajetórias longamente maturadas, que são interrompidas por fatores acidentais. Em suma, este texto que escapa da simples crítica de momento, se inscreve como denúncia da contra-revolução brasileira, no período de obnubilação da própria nacionalidade, que se estende desde o governo Collor estabelecendo uma ponte com os dois mandatos de governo de FHC. Trata-se da reversão de um processo emancipatório de construção da nação perseguido desde a Independência política, passando pela República positivista, pela revolução de 1930 e, no último pós-guerra, pelos movimentos nacionais e sociais em torno de um projeto de nação.Na realidade, o governo renunciou à construção de um sistema econômico nacional, entregando o País ao domínio do capital internacional, reduzindo o Estado a um papel.tributário dos oligopólios e do capital financeiro especulativo.

Os fatos do poder mesmo transitório têm uma dimensão histórica, que terá de ser julgada, pois a história é, em última instância, um problema de consciência, quase um imperativo da consciência vigilante e combatente.

Com as últimas eleições.gerais no País encerrou-se um curto ciclo marcado pela irresponsabilidade do governo neoliberal/monetarista de FHC atrelado aos EUA, que produziu maior crise da nossa história econômica, social .e financeira.Em seus dois governos ocorreu a adesão irrestrita à estrutura do sistema financeiro internacional baseado no monetarismo ortodoxo, resultando no brutal endividamento e na perda pelo Estado/ governo do controle econômico e financeiro e do monopólio relativo das relações internacionais.

 O Estado e o sistema político-institucional abdicaram de representar as estruturas e dinâmicas socioeconômicas internas em favor do mercado financeiro internacional, perdendo sua identidade e, voluntariamente, a capacidade de agir em favor da nação.Politicamente, assistimos no discurso oficial apenas a apologia da dominação e a repulsa à causa nacional. .

A débâcle brasileira coincide com a devastadora jornada da globalização como fundamento da nova geopolítica de dominação mundial, ainda que fortemente contestada tanto pela teoria econômica como pelas nações submetidas.

Ao apagar das luzes do ano 2002, constata-se que para evitar o caos destrutivo da civilização ocidental será necessário rever os fundamentos teóricos e práticos do sistema mundial fundado na ortodoxia monetarista. A crise estrutural não está exclusivamente na descontinuidade centro-periferia, na prática de um neocolonialismo predatório, nas instituições  multilaterais integradas no sistema monetário internacional, mas na constatação concreta do estelionato histórico que marcou o sistema.

Do ponto de vista global, o monetarismo baseado na especulação financeira e na ditadura do “mercado” produziu uma super-inflação de lucros no sistema financeiro central ao lado de uma super-inflação de miséria e desemprego em todo o mundo, particularmente nos países periféricos e semi-periféricos. Não trouxe qualquer contribuição para a humanidade e, comprovadamente, falhou como expectativa do “mundo melhor” anunciado pelos vencedores no último pós-guerra. Constituiu no plano socioeconômico e das relações internacionais profunda desintegração da civilização ocidental. Depois da Guerra Fria, a globalização hegemônica do capital financeiro e tecnológico parece encerrar um ciclo histórico. A esperança numa nova era de desenvolvimento e estabilidade transformou-se num terrível pesadelo não apenas para as nações periféricas mas para toda a ordem internacional em crise contínua e sem perspectiva dentro do padrão do sistema.

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A Nova ordem internacional

A ordem monetária internacional inaugurada no pós-guerra projetava os interesses dos EUA. Seu principal instrumento consistiu na criação do FMI-Fundo Monetário Internacional encarregado da manutenção de elevados índices de renda e de emprego.Não obstante, o sistema faliu quanto aos objetivos de estabilidade monetária nas economias centrais como principalmente nos países do Terceiro Mundo.O sistema monetário internacional, administrado consoante os “Artigos do Fundo Monetário Internacional”, sob a preponderância dos EUA, que assumiu papel efetivo de banco mundial, foi justificado em nome de uma interdependência profundamente assimétrica, responsável pelas crises, particularmente na América Latina e nas demais regiões subdesenvolvidas.Daí o seu papel de polícia internacional nas relações entre os balanços de pagamento e os ajustes nas transações, em especial nos países em que a balança de pagamentos é deficitária, como caso do Brasil. Essa a razão da exigência do FMI de colocar no Banco Central técnicos da sua inteira confiança para dar continuidade ao regime de abertura monetária.em benefício dos fluxos de capitais especulativos.

O sistema monetário internacional está no núcleo do capitalismo financeiro de caráter especulativo, que modela a civilização ocidental. Porém, desde 1960 ocorreu no uma sucessão de crises cambiais imanentes ao próprio sistema, a despeito da reforma em 1972-1974. que introduziu a flutuação cambial, reduzindo a autonomia das políticas internas dos países.Os EUA desde agosto de 1971 haviam rompido o padrão de conversão em ouro, passando a pagar o déficit no seu balanço de pagamentos emitindo a sua própria moeda sem qualquer controle internacional. No debate entre fiscalistas e monetaristas nos anos 60 e 70 do século XX venceu a segunda posição, que fundamentou a metáfora globalizante de abertura comercial, liberação do mercado de capitais, privatizações do setor público, flexibilização dos contratos de trabalho. O monetarismo em macroeconomia foi uma regressão ao classicismo pré-Keynesiano, centrado na política monetária infensa ao planejamento econômico, à tributação do capital, à proteção do trabalho com um mínimo de intervenção do Estado/governo na economia. No final, diante do caos da globalização a fórmula foi a convergência do monetarismo com o fiscalismo. Esse paraíso do capital especulativo passou a desconhecer o controle nacional e eliminou as fronteiras entre.o público e o privado. O colapso precoce desse nova etapa do capitalismo anglo-americano em escala mundial, iniciado em 1980 com a desregulamentação financeira nos governos Reagan e Thatcher , resultou em que o mercado financeiro escapando do controle dos bancos centrais sobre as moedas nacionais criou imensas “bolhas”especulativas. A concentração financeira decorrente ao lado da superprodução com as imensas megafusões internacionais, estabeleceu quadro de profunda assimetria em relação aos países periféricos e semi-periféricos.

 Com essa abordagem, a crise .do sistema financeiro adquiriu gravíssimos contornos socioeconômicos, particularmente para os países dependentes de capital, sem contudo resolver a estagnação nas economias centrais, particularmente nos EUA. O problema cíclico da inflação e deflação transformou-se em fenômeno puramente monetarista.A estaginflacão seguiu na esteira das crises cambiais. O arsenal monetarista tornou-se sumamente pobre e ineficiente, resumindo-se aos mecanismos de câmbio, juros e ajustes fiscais, que têm limites estreitos diante da avassalante crise do sistema.

O górdio continuou instalado no regime cambial, no mercado de câmbio desregulamentado e controlado pelo capital financeiro, propiciando a transferência de recursos maciços ao exterior por intermédio do serviço da dívida, sem que os governos dos países subdesenvolvidos pudessem intervir, senão com paliativos. As crises cambiais crônicas são característica dos paises endividados, que adotaram o mercado livre. Elas favorecem os bancos e especuladores, agravam a desvalorização das moedas nacionais e rompem todo e qualquer parâmetro inflacionário.Durante o primeiro mandato de FHC, o real sobrevalorizado provocou com a explosão dos importados o agravamento do déficit  em conta corrente equivalente ao do pagamento dos juros da dívida externa, além de gerar baixo crescimento econômico. E conseqüente aumento do desemprego. A crise cambial de agosto de 1998 a 13 de janeiro de 1999, que estava escrita, custou ao País US$ 30 bilhões e mais US$ 9 bilhões de empréstimos do FMI.para sustentar o real sobrevalorizado, que terminou com a inevitável mudança do regime cambial. no mês de setembro a desvalorização do real produziu um aumento de R$ 98,9 bilhões na dívida do setor público, o qual compreende a União,estados,municípios e estatais, a mais elevada registrada.Seguiram-se outras crises ao apagar das luzes do governo FHC , particularmente a de 28 de setembro de 2002,contando com a intervenção do FMI. Foi assim que o País tecnicamente quebrou deixando uma trágica herança para os próximos governos...

A ortodoxia monetarista é contrária a qualquer controle cambial, que consiste na interferência direta do governo na oferta e procura de divisas, assim como na taxa de câmbio fixada, visando a defesa do câmbio nacional depreciado e o equilíbrio perante as disparidades de estruturas econômicas. Justifica-se o protecionismo cambial tanto pela necessidade de desenvolvimento como pela dificuldade instransponível do balanço de pagamentos..Ele pode impedir a fuga do capital especulativo e o conseqüente colapso cambial.buscando a estabilização. Para tanto o Banco Central não poderá ser em nenhuma hipóteseindependenteouautônomo”: de maneira a retirar do Estado/ governo

prerrogativas essenciais de defesa da economia O economista norte-americano Josepl Stuglitz, Premio Nobel de economia, em seminário do BNDES em setembro de 2002, defendeu a tese de que o Banco Central ïndependente é perigoso uma vez que pode substituir as decisões políticas da alçada do Estado/governo.No governo FHC, o Banco Central formado pelo seu presidente, um diretor e pelo ministro da Fazenda Pedro Malan assumiu a política econômica do País, sob as ordens do FMI e Banco Central norte-americano.O próprio governo findo, que apostou no Banco Central, reconhece a falência do banco diante da impossibilidade técnica e política de controlar a volatilidade do câmbio e a moeda nacional.

O maior problema para uma política monetária nacional está em desvincular o real do dólar, particularmente quanto à dívida interna,o que somente será possível mediante a adoção do controle cambial. A anexação da moeda brasileira ao dólar é responsável pela inflação, que os preços oscilam no mercado interno em função da variação das taxas do dólar.

Existem mecanismos eficientes de controle cambial de regulamentação interna e de acerto com o estrangeiro. O mecanismo das licenças de importação e exportação e o controle de entrada e saída de capital , que vigorou no Brasil no pós-guerra, é uma solução comprovadamente eficiente  Quando as autoridades monetárias dos bancos centrais reservam-se o monopólio do câmbio, certamente as ofertas e procuras de divisas não mais influem no câmbio, que ele é fixado pelo poder público.por intermédio do Banco Central.

Os Estados/ governos, particularmente nos países dependentes, perderam a função de controle do câmbio com a vigência da ortodoxia monetarista do FMI transformado no banco central mundial e, particularmente, em instância executiva de controle das dívidas impagáveis dos países dependentes.A política de juros altíssimos no Brasil para atrair investimentos especulativos constitui o principal instrumento da inflação, que aumenta o custo da produção, beneficiando sobretudo os oligopólios, que administram os preços e aumentando a dívida pública interna na busca enganosa de equilíbrio do balanço de pagamentos estruturalmente deficitário.Os juros neste final de mandato governamental absorvem cerca de 70% das receitas tributárias. Sem o controle cambial tornou-se impossível o registro dos movimentos de capitais e mesmo o montante atual da dívida externa.       

Num livro clássico de política econômica,Governments’Role in Economic Life, o professor norte-americano George Steiner discute os limites da intervenção do governo na economia nas circunstâncias de crise, a exemplo do que acontece atualmente no Brasil.Propõe que o governo poderá dirigir o sistema econômico , de maneira completa, mencionando rígido controle cambial, além de exercer ilimitadamente o controle .dos assuntos fiscais e monetários para a assegurar o controle da inflação e a plena mobilização dos recursos da economia visando assegurar a estabilidade social e o máximo emprego.Pode, também, restringir as concentrações do poder econômico privado e os abusos do exercício desse poder, de maneira a assegurar a todos um mínimo de acesso aos bens oferecidos e proteger o indivíduo contra os riscos do poder econômico.

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O Pacto Neocolonial

A globalização correspondeu a uma nova etapa mais agressiva do capitalismo central liderado pela economia norte-americana diante da crise do sistema. A nova arquitetura mundial não resolveu as profundas distorções do sistema, que corresponde a um pacto neocolonial para os países periféricos da América Latina,África, Leste e centro da Ásia, alterando o conceito tradicional de dependência. A antiga noção de dependência tratava das relações assimétricas entre o centro capitalista e as regiões subdesenvolvidas, determinando o maior ou menor grau de domínio de uma nação sobre a outra. Com a globalização o problema deslocou-se para o plano das relações internacionais mais amplas e profundas, envolvendo os organismos multilaterais criados em Bretton Woods, sob a poderosa influência dos EUA. Essas instituições impõem duras restrições aos países periféricos, que limitam drasticamente as possibilidades de desenvolvimento econômico, social, político e cultural. O resultado da nova ordem imperial foi a insolvência, o aprofundamento da pobreza e do atraso praticamente irrecuperáveis de cerca de três quartas partes da humanidade, cujo padrão de vida está abaixo do nível do começo do século XX..

Na América Latina, o denominado Consenso de Washington, reconhecidamente esgotado ,deixou os países inviabilizados. não será mais possível continuar o jogo da absorção do capital externo diante da exaustão dos países receptores, que gerou a crise crônica no balanço de pagamentos.

O fato decisivo nas relações centro-periferia está no desaparecimento das estruturas do poder econômico nacional. O pacto neocolonial ampliou de tal forma a política do poder internacional que são as estruturas econômicas oligopolizadas dos países centrais que determinam e modelam as estruturas econômicas e políticas dos países periféricos, de maneira a anular o conceito econômico de nação. A crise sistêmica dos países latino-americanos, a partir do final do século XX, se deveu à adesão irresponsável dos governos, particularmente das duas maiores economias, a brasileira e a Argentina, ao pacto neocolonial, fosse por oportunismo, despreparo intelectual ou falta de visão estratégica dos seus dirigentes.Os governos não souberam equacionar a questão da autonomia do Estado em sua contradição com o paradigma do mercado financeiro desregulado.e a abertura das fronteiras comerciais.Embora em cada período histórico o capitalismo mundial apresente transformações, a nação representada pelo Estado continuou sendo o lugar privilegiado das decisões políticas entre os interesses nacionais, no nosso caso de desenvolvimento auto-centrado, e os do sistema econômico e financeiro internacional.                                   

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A desconstitucionalização e o Estado privatizado

O processo de desconstitucionalização do Estado brasileiro teve início com a Lei 8.031, de dezembro de 1990, originária da Medida Provisória n.157do mesmo ano, dispondo sobre Certificados de Privatizações seguida do Programa Nacional de Desestatização, que atingia as empresas controladas diretas ou indiretamente pela União, inclusive aquelas dos setores considerados estratégicos da economia.Com essas medidas o governo revogou na prática o Artigo 177 da Constituição de 1988, que definia o monopólio da União sobre pesquisa e lavra das jazidas de petróleo, gás natural e hidrocarburetos fluídos e outras atividades tais como a importação e exportação dos produtos e derivados básicos e a refinação petróleo e seus transporte. objetivando a abertura do monopólio da Petrobrás. Dessa forma, o governo altamente comprometido com ilicitudes, que acabou sendo destituído pelo próprio Congresso Nacional, conseguiu privatizar os setores petroquímico, siderúrgico, inclusive a Cia Siderúrgica Nacional, de fertilizantes e eliminar os embaraços constitucionais à exploração mineral. Essas empresas privatizadas continuaram recebendo financiamento dos BNDES, o que conflitava com as justificativas do governo  de novos investimentos privados estrangeiros e nacionais na infra-estrutura do País. Para o empresariado e bancos que apoiaram o Consenso de Washington,o processo de privatização ofereceu a oportunidade para pingues lucros . Na realidade, o setor privado nacional e estrangeiro pouco investiu na empresas privatizadas, que se utilizaram dos financiamentos e subsídios do BNDES tanto para a aquisição do patrimônio público como para eventuais investimentos posteriores.Esse tipo de financiamento pode ser considerado como sinônimo de déficit em conta corrente, em redução da poupança interna. O BNDES foi o principal instrumento das privatizações, privilegiando as empresas transnacionais e os grandes conglomerados em detrimento da indústria nacional.A despeito, muitas empresas privatizadas perderam tecnicamente sua função de utilidade pública.por ausência de investimentos próprios na manutenção e expansão. Os casos exemplares foram os das empresas estatais privatizadas como malha da Rede Ferroviária Federal dotada de potencial turístico, das malhas estaduais, que foram rigorosamente erradicadas em favor do transporte rodoviário, assim como a marinha mercante brasileira.Particularmente, com a privatização da RFFSA ainda não liquidada, o governo perdeu aproximadamente R$ 6 bilhões , enquanto o leilão rendeu apenas R$ 1,76 bilhão, o que deverá levar à pura e simples extinção da Rede.A malha Centro-Oeste está inadimplente com o governo pela falta de pagamento da concessão..

 Num país de dimensões continentais tanto o sistema de cabotagem como o ferroviário têm singular importância tanto para os produtos direcionados para o mercado externo como para o mercado interno dada a sua função precípua de integração nacional no rumo da interiorização. O sistema ferroviário, em particular, além de ser mais seguro e barato, seu custo de implantação e recuperação é relativamente menor que as obras rodoviárias, que exigem altos investimentos do Estado em infra-estrutura especialmente de caráter urbanístico.Acresce que os concessionários das ferrovias vêm adiando o pagamento pelas concessões, o que está a exigir a revisão dos contratos.

.. Durante o governo Itamar Franco, com a posse de André Franco Montoro na presidência da Comissão Diretora do Plano Nacional de Privatização, a participação do capital estrangeiro nas privatizações foi ampliada de 40 para 100% do capital votante. Anteriormente, no governo Collor, as bolsas de valores foram abertas aos investimentos diretos do capital estrangeiro.

Na presidência de Pérsio Arida no BNDES foi incluída na lista das privatizações a Companhia Vale do Rio Doce, Petrobrás e subsidiárias, Telebrás e subsidiárias. A Petroquímica União foi adquirida pela empresa União Carbide e a Cia Vale do Rio Doce  com reservas dimensionadas calculadas em US$ 350 bilhões foi privatizada por US$ 15 bilhões, valor pago em papel e moeda da dívida pública. A Vale detinha grande parte do subsolo e, conseqüentemente, servidão de imenso território na Amazônia.

As privatizações à outrance suscitaram um problema jurídico de conflito entre o direito público e o direito privado de maneira a romper a unidade jurídica do poder do Estado.O Direito Administrativo, que sempre esteve ligado ao Estado nacional em sua evolução histórica, foi substituído pelo direito privado arbitrado aleatoriamente pelo próprio governo.

 A eleição de Fernando Henrique Cardoso em 1994 ocorreu no auge do Plano Real, uma manipulação cambial preparada no laboratório monetarista do FMI e que custou caro aos países que a adotaram. O modelo cambial que inspirou o Real esgotou em 1999 com a mudança do regime de bandas cambiais pela livre flutuação do câmbio, a qual estabeleceu  metas inflacionárias que nunca se realizaram.Na ocasião, o País perdeu com a fuga das reservas em divisas cerca de US$ 50 bilhões.

Em princípio, o governo eliminou a possibilidade do controle cambial e com isso advieram as crises cambiais crônicas e o endividamento impagável.A precária estabilidade continuou baseada no mito dos financiamentos externos, sempre volúveis pela sua própria natureza e que contribuíram para o déficit crescente do balanço de pagamentos

Em 1955, no governo FHC, foi radicalmente implementada a reformas monetária, patrimonial e administrativa mediante agregação de interesses internacionais, notadamente norte-americanos, com as instituições financeiros e empresariais internas.

. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) , provinda do executivo, alterou o modus existencial do Estado com as privatizações das empresas de utilidade pública e estratégicas.Na mensagem 193/95, o governo propôs com a anuência do Congresso a alteração do Artigo 171 da Carta Magna, eliminando no inciso lX a expressãocapital nacional” e, por conseqüência, o Parágrafo segundo mesmo Artigo. Assim ficou alterado também o Parágrafo primeiro do Artigo 176 quanto à restrição constitucional na exploração de mineração em faixa de fronteira e reservas indígenas.

A Constituição de 1988 é que deu forma ao Estado democrático de maneira a preservar o patrimônio público.O arcabouço jurídico da nação foi mutilado em sua essência com a eliminação das cláusulas consideradas pétreas da Constituição de 1988. As empresas públicas ( no caso brasileiro de natureza mista) é pela sua origem,natureza e finalidade considerada patrimônio indivisível da nação, podendo ser alienada somente em casos especialíssimos de calamidade pública, de falência ou de desinteresse do Estado, porém jamais como forma extrema de apropriação privada com recursos do próprio Estado/ governo , em situações normais de direito. Com as PEC houve também afronta ao princípio da soberania nacional, que reside exclusivamente no Estado-Nação , de onde emanam os poderes públicos estabelecidos pela Constituição. Como lei suprema, não pode existir lei e muito menos emendas que contradigam ou sejam superiores à Constituição, salvo em situações de exceção. Daí concluir-se que o Estado brasileiro foi privatizado pelo próprio governo eleito pelo Plano Real.

As agressões ao Estado constitucional consubstanciaram-se nas alterações mencionadas dos Artigos 171,176 e 177, que tratavam da empresa brasileira de capital nacional, permitindo a abertura de cabotagem a armadores estrangeiros, bem como a exploração do subsolo, relacionados ao regime de concessões e permissões de serviços públicos (Artigos 155,156 e 157) referentes à exploração das jazidas de lavras ou não, demais recursos minerais e potenciais de energia elétrica.

 O Estado nacional contemporâneo comporta múltiplos aspectos, priorizando no nível político a defesa do princípio da soberania e autodeterminação, o que implica na preservação da territorialidade e de suas instituições políticas. Para Weber, o conceito de nação e de interesse nacional “é o limite da perspectiva política e ao mesmo tempo constitui o seu valor final”. No plano socioeconomico cumpre-lhe como norma de segurança a defesa do sistema econômico combinado com o emprego e a acumulação interna de capital. No nível teórico, que integra particularmente a Teoria Política, compreende as relações internacionais de proteção dos interesses do País no cenário internacional. Daí que a intervenção do Estado na economia, na sociedade, na estrutura de poder e na cultura tem sido recorrente na história das nações.A extensão da atividade pública na forma estatal é inerente ao Estado moderno e contemporâneo.em qualquer regime político, seja indiretamente no capitalismo através de mecanismos reguladores ou diretamente nos regimes autárquicos.

Essa constatação vem corroborar a evidência histórica do papel normativo e empresarial do Estado/governo que o privativismo por si não tem qualquer condição de auto-regulação, estabilidade e.mesmo da manutenção do sistema produtivo nacional, particularmente nos países dependentes. A interferência direta do Estado na vida socioeconômica constitui, pois, condição necessária para o desenvolvimento nacional..

Pelo menos no discurso político ninguém contesta as prerrogativas.estatais. Mas no plano econômico as coisas se complicam quanto ao grau de intervenção estatal na economia, abrindo um confronto com a aspiração absolutista da denominada “iniciativa privada” , que em todos os países do Ocidente depende estreitamente dos estímulos e da proteção do Estado. É reconhecida a tese de que foi o Estado contemporâneo o principal agente do desenvolvimento das sociedades. A controvérsia se agrava nos países de periféricos extração colonial, que ainda se mantém subjugados ao capital externo.A indagação pertinente resume-se em como o Estado poderá preservar a segurança econômica da nação e construir um mercado interno diante do automatismo do mercado financeiro globalizado.

Vimos insistindo na tese de eminentes tratadistas que distinguem Estado de governo. Enquanto o primeiro é permanente, constituído de território, povo e soberania, o governo resume-se no exercício temporário do poder estatal. O que ocorreu no Brasil, desde o governo Collor aos dois mandatos presidenciais de FHC, foi simplesmente a privatização pelo governo do Estado em nome de uma nova ordem internacional .

Na realidade, a proposta privativista tinha como objetivo eliminar a função executora do Estado/ governo, transferindo-a para o sistema financeiro, para os monopólios e oligopólios transnacionais, sob o pretexto de modernização de gestão e pagamento da dívida externa. Até então, o aparelho estatal havia funcionado como esteio da economia nacional formada pelas empresas públicas de capital misto, pelo setor privado nacional e inclusive o internacional.

 A mudança estrutural do Estado foi justificada por FHC, em junho de 1999, num exercício de manipulação de conceitos, como resultante de novamentalidade” imperante no País: “Essa nova mentalidade vai se impondo pouco a pouco na administração brasileira, no Estado brasileiro. Não vou repetir, por desnecessário o que disse o ministro Pedro Parente, mas é importante notar que essas transformações vêm de algum tempo. Desde que em 1955, o Congresso Nacional flexibilizou os monopólios, possibilitando a mudança do Estado.(...) Tivéssemos apenas nos conformado com uma decisão por si importante, da flexibilização do monopólios , não teríamos possibilitado que o Estado se equipasse para que pudesse enfrentar a nova fase de competição, de abertura da economia, de apelo crescente ao capital privado para o investimento nas áreas onde o Estado, por não ter recursos e também por não ser, talvez,o mais adequado, não vai atuar de forma mais expressiva, não teríamos tido a possibilidade de fazer, como hoje se faz, uma revitalização dessas áreas. Se o primeiro passo foi a quebra de monopólio, tão importante quanto isso foi o fato de o governo ter enviado ao Congresso e, depois de longa e democrática discussão, e ele ter aprovado as agências reguladoras a Agência Nacional de Petróleo, a Agência nacional de Energia Elétrica, a Agência Nacional de Telecomunicações e, brevemente, a Agência Nacional de Transporte.(...) Estamos fazendo a reforma do Brasil”.

A denominada “crise fiscal”do governo serviu como pretexto para a “nova mentalidade” de privatização dos ativos públicos, que sustentavam a economia nacional , tendo em vista assegurar o pagamento de juros aos bancos e investidores internacionais. Porém, as dívidas externa e interna não pararam de crescer desde 1995, atingindo uma situação limite. Há 22 anos atrás o governo detinha através de suas